A voz das plantas e a vida da lápide na poesia de Helder Herik

Capas dos livros "As plantas crescem latindo" e "Sobre a lápide: o musgo", de Helder Herik

Os temas das telas do pintor Vincent Van Gogh não eram novidade na pintura quando ele surgiu. Sua genialidade ― infelizmente, só postumamente reconhecida ― foi identificada, sobretudo, no olhar dele sobre as coisas e em sua forma singular de representá-las. As séries dedicadas às flores são os exemplos mais contundentes de seu talento artístico, que influenciou fortemente toda a produção das vanguardas do início do século XX. Entre essas séries estão as pinturas de girassóis, com destaque para a tela “doze girassóis num vaso”, a mais famosa. É um detalhe dessa pintura que ilustra a capa da obra poética As plantas crescem latindo (u-Carbureto, 2009, 112 p.), título que me despertou a curiosidade quando vi um exemplar na mão de alguém durante a primeira FreePorto (2009), festa literária ― cheia de boas surpresas ― para a qual o autor do livro tinha sido convidado, o jovem poeta de Garanhuns Helder Herik. Continue lendo

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Carta a Hilda Hilst

"Homem com a cabeça de hortênsias azuis", Salvador Dalí

Mas pensa, se você é o bicho medonho, você só tem que esperar menininhos nas margens do teu rio e devorá-los, se você é o crisântemo polpudo e amarelo, você só pode esperar ser colhido, se você é o menininho, você tem que ir sempre à procura do crisântemo e correr o risco. De ser devorado. Oi ai. Não há salvação.

Fluxo, Hilda Hilst

Hilda,

Escolhi.

Tu sabes que os caminhos eram parcos. Um pouco mais de coragem e eu abriria novas trilhas. Mas escolhi uma que já estava lá. Ela se cruzava com outras. Parcas, mas outras. E essas eram semelhantes àquela mesma em que eu seguia apenas no propósito que possuem de ser trilha. Continue lendo

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“Como Narciso diante do lago”

Capa: “La toilette”, do pós-impressionista francês Henri Toulouse-Lautrec.

[...] o que é uma mulher? Garanto que não sei. Não acredito que vocês saibam. Não acredito que alguém possa saber até que ela tenha se expressado em todas as artes e profissões disponíveis à habilidade humana.[1]

Virginia Woolf.

As várias tentativas, radicais e frustradas, de parar de fumar me fizeram, desta vez, pegar menos pesado comigo mesmo e ontem resolvi fazer um acordo tácito com minha compulsão: dar apenas “um tempo” no cigarro: 24 horas de abstinência. Talvez mais. Talvez menos. O importante era que o processo fosse tranquilo. Mas o inconsciente prega peças. Uma reportagem sobre o fato de que os homens contemporâneos estão buscando romantismo enquanto as mulheres querem saber de sexo fez-me lembrar de um livro de contos que eu tinha começado a ler semanas antes, mas tinha parado: Mau hábito, de Clarissa Loureiro, recentemente lançado pela editora Bagaço.   Continue lendo

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A ECONOMIA DE 7 CONTOS E UNS TROCADOS

capa de 7 Contos e Uns Trocados, de Samuca Santos

Para Edgar Allan Poe, cada palavra de um conto, da primeira à derradeira, cada frase, deveria dirigir-se sem desvios para atingir o que ele chamou de “efeito único” (single effect). Evidentemente, as ideias estéticas do grande contista do romantismo americano não podem ser seguidas à risca pelo contista contemporâneo, pois já se passaram quase dois séculos de transformações nas elaborações literárias e nas expectativas dos leitores diante de um conto. Atualmente, valem mais as considerações de Júlio Cortázar em Valise de Cronópio: “Ninguém pode pretender que só se devam escrever contos após conhecidas suas leis. Em primeiro lugar, não há tais leis; no máximo cabe falar de pontos de vista, de certas constantes que dão uma estrutura a esse gênero tão pouco classificável”.  (2006, p.150).

Contudo, o novo livro de Samuca Santos, ironicamente intitulado 7 contos e uns trocados, parece radicalizar a economia proposta por Poe. Continue lendo

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Minha terra África e O esplendor de Portugal

Cena do filme "Minha Terra África" (2009)

Todas as potências que exercem direitos de soberania ou qualquer influência nos territórios indicados obrigam-se a velar pela conservação das populações indígenas e pela melhoria das suas condições morais e materiais de assistência e a concorrer para a supressão da escravatura e sobretudo do tráfico dos negros; protegerão e favorecerão, sem distinção de nacionalidade nem de cultos, todas as instituições e empresas religiosas, científicas ou de caridade criadas e organizadas para aqueles fins ou destinadas a instruir os indígenas e a fazer-lhes compreender e apreciar as vantagens da civilização.

Ato Geral da Conferência de Berlim, Art. VI (1885).

A Conferência de Berlim, proposta por Portugal e realizada entre 1884 e 1885, tinha como objetivo regulamentar a ocupação da África pelas potências coloniais e resultou numa partição dos territórios – para não dizer dilaceração – que não respeitava nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos daquele continente.  Conflitos tribais e diferenças étnicas inconciliáveis foram espremidas sob o domínio do poder militar e econômico de diferentes países europeus, que separaram os nativos em fronteiras ilegítimas para eles.

Vi ontem um filme que retrata de modo bastante preciso as tristes consequências da colonização, tanto para a maioria dos colonizadores e quanto dos colonizados. A precisão do filme não está na descrição historiográfica dos fatos, mas na sensibilidade com que o tema é tratado, ou seja, tentando enxergar os danos nos dois lados dessa moeda chamada “colonização”, que enriqueceu muitos países europeus. O filme é Minha terra, África (no original: White material), da francesa Claire Denis. Flertando com a linguagem do documentário, a narrativa se desenvolve centrada no drama de uma mulher branca tentando salvar seu mundo no meio de uma guerra civil instalada num país africano não nomeado.

Minha terra, África, pelo cenário da colonização e pela narrativa centrada numa personagem feminina, fez-me lembrar de um livro que li há alguns anos e que me impressionou profundamente: O esplendor de Portugal, do escritor António Lobo Antunes. Continue lendo

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E era sábado quando Jesus lhe abriu os olhos

A incredulidade de São Tomé (1601), Caravaggio

“Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Evangelho segundo S. Mateus 5:20)

Neste sábado de aleluia, na Paixão de Cristo da Cidade de Deus (RJ), a peça “Outra Paixão”, apresentada pela Cia. de Teatro Provocações, traz um cristo negro, morador de favela, que luta contra a criminalidade e os desmandos dos traficantes na comunidade. Ao invés de ser crucificado, esse Cristo negro é queimado dentro de uma pilha de pneus, o que os traficantes chamam de “microondas”, que é a punição para os “rebeldes”.

O Cristo bíblico levou as pessoas a refletiram profundamente sobre sua realidade, a repensarem e se rebelarem, por fora e por dentro, contra a condição de violência em que viviam. Continue lendo

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Eles não se movem de si

Quando eu leio o título do livro Tu não te moves de ti, de Hilda Hilst, uma das coisas que me vêm à mente é a postura de alguns intelectuais de nossa cidade em relação à produção literária pernambucana. Continue lendo

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Feridas Abertas com Florbela Espanca

A noite sobre nós se debruçou na última sexta-feira trazendo mais uma edição do projeto “Feridas Abertas da Literatura ― A nova crítica literária de Pernambuco”, idealizado e conduzido pelo poeta, pesquisador e professor de literatura André de Sena. Continue lendo
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A maturidade poética d’As Filhas de Lilith

Por Johnny Martins
Não é necessário ir muito longe, nem na sociologia nem na psicologia nem nos agrupamentos humanos, para se verificar que a constituição da identidade de um sujeito não advém apenas do local de sua origem ou de sua forma biológica. A identidade dos sujeitos é atravessada por discursos, práticas culturais, desejos ortodoxos e não ortodoxos, tradições e transgressões. Um livro, cujo título alude a uma origem remota, assume essa constatação na forma de poesia: As Filhas de Lilith (Editora Calibán, 89 páginas), a mais recente produção ― lançada no ano passado ― da poeta Cida Pedrosa. Continue lendo
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