
Cena do filme "Minha Terra África" (2009)
Todas as potências que exercem direitos de soberania ou qualquer influência nos territórios indicados obrigam-se a velar pela conservação das populações indígenas e pela melhoria das suas condições morais e materiais de assistência e a concorrer para a supressão da escravatura e sobretudo do tráfico dos negros; protegerão e favorecerão, sem distinção de nacionalidade nem de cultos, todas as instituições e empresas religiosas, científicas ou de caridade criadas e organizadas para aqueles fins ou destinadas a instruir os indígenas e a fazer-lhes compreender e apreciar as vantagens da civilização.
Ato Geral da Conferência de Berlim, Art. VI (1885).
A Conferência de Berlim, proposta por Portugal e realizada entre 1884 e 1885, tinha como objetivo regulamentar a ocupação da África pelas potências coloniais e resultou numa partição dos territórios – para não dizer dilaceração – que não respeitava nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos daquele continente. Conflitos tribais e diferenças étnicas inconciliáveis foram espremidas sob o domínio do poder militar e econômico de diferentes países europeus, que separaram os nativos em fronteiras ilegítimas para eles.
Vi ontem um filme que retrata de modo bastante preciso as tristes consequências da colonização, tanto para a maioria dos colonizadores e quanto dos colonizados. A precisão do filme não está na descrição historiográfica dos fatos, mas na sensibilidade com que o tema é tratado, ou seja, tentando enxergar os danos nos dois lados dessa moeda chamada “colonização”, que enriqueceu muitos países europeus. O filme é Minha terra, África (no original: White material), da francesa Claire Denis. Flertando com a linguagem do documentário, a narrativa se desenvolve centrada no drama de uma mulher branca tentando salvar seu mundo no meio de uma guerra civil instalada num país africano não nomeado.
Minha terra, África, pelo cenário da colonização e pela narrativa centrada numa personagem feminina, fez-me lembrar de um livro que li há alguns anos e que me impressionou profundamente: O esplendor de Portugal, do escritor António Lobo Antunes. Continue lendo →